Solidão Pós-moderna

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O Século XXI é mutante. Isso não chega a ser novidade, se pensarmos que o homem sempre esteve, digamos, evoluindo. A ciência e a tecnologia estão aí, dando saltos imensos, em frentes que vão da microbiologia e seus transgênicos à busca do deslindamento da história do universo, através das lentes de poderosos telescópios.

Somos mutantes, no entanto, no sentido de que nossa humanidade se perde nessas mudanças. Elas são em número e velocidade acima de nossa capacidade de absorção. Alienação passa a ser um antiácido a ser ingerido juntamente com a salada de frutas de informação que temos que deglutir todo dia.

Nossa desumanização começa, por exemplo, quando abrimos mão da casa paterna para tentar a vida em uma outra cidade ou país — e nunca mais voltamos. Nossos pais ficam sem netos e nossos filhos sem avós e tios. E nossa história, nossos valores, ideais, referenciais e heróis; nosso patrimônio simbólico, enfim, se perde na distância.

Longe da família e da igreja de origem, buscamos formar uma nova família. Uma família plasmada na correria da vida, na superficialidade, na sensualidade e na urgência oriunda de uma crescente carência afetiva. Tentamos reter na memória a nossa velha humanidade, mas já não nos sentimos à vontade abrindo o coração, falando do mundo interior, de sonhos, de ideais, de projetos de vida que, eventualmente, possam ser vividos a dois. "Ficamos" até onde for possível.

No ambiente de trabalho, as relações são cordiais o suficiente para esconder a luta encarniçada estabelecida pela competição: somente os mais adaptados sobrevivem. Os encontros, festas, almoços e jantares de negócio são o que resta dos laços cálidos e duradouros dos companheiros da infância.

Para sobreviver nesse ambiente hostil e exigente, pai e mãe precisam trabalhar. Para serem alguém, algo mais que simples "mão-de-obra", precisam de toda a energia disponível para tocar uma carreira de sucesso. Precisam vencer na vida. E essa vitória não comporta filhos. Pelo menos não do jeito antigo: filhos para serem amados em um convívio extenso e intenso. Agora eles são "curtidos" nos finais de semana em que não estejamos viajando a serviço. Durante a semana, terão uma boa educação numa creche ou numa escola de tempo integral. Desmamados cedo, eles aprendem a ser independentes.

Quando o divórcio vem (a carreira pode exigir), eles passam a viver ora com o pai, ora com a mãe — e com seus meio-irmãos, oriundos do novo casamento do pai e da mãe.

Não tenhamos pena desses nossos filhos. Eles se adaptarão. Sobreviverão e serão parecidos conosco. Não, serão melhores. Serão mais fortes e resistentes às distâncias, indiferenças e separações. Serão adaptados a um mundo onde não se olha para dentro, para a alma; aprenderão a ligar a televisão para não ouvir o silêncio; aprenderão a se ligar às pessoas sem chegar perto; aprenderão a confiar desconfiando e a não esperar misericórdia; aprenderão a fazer amor sem amar; aprenderão a viver no Século XXI. São mutantes.

Alguns deles, um dia, numa praça, numa esquina, ouvirão dizer que "Cristo salva". E pensarão: "não estou morrendo". Outros, no entanto, compreenderão que nEle lhes é possível uma nova e antiga humanidade — a humanidade original, na qual o colo do pai, da mãe, de tios e avós lhes é restaurado no mistério da igreja; no milagre da regeneração de seu próprio interior. Salvação. Nossos filhos mutantes, perdidos e órfãos ouvirão: "assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus" (Ef 2, 19)— e crerão.

Rubem Amorese

O deus que não é Deus

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Existe um deus que não é Deus. O único com força para enfrentar a Deus. Esse deus não vive em alguma dimensão cósmica ou ponto do universo. Seu oratório é a mente humana. Ele é um deus familiar, pois vive nos espelhos da alma. Mesquinho, cobra desempenhos impossíveis. Inclemente, castiga as inadequações dos fracos com fúria. Ofendido por uma pessoa, dizima gerações inteiras. Imprevisível, age com um humor indetectável.

Existe um deus que não é Deus. Capaz de ofuscar o próprio Deus, misturou-se em todas as religiões. Sanguinário, exige sacrifício para estender a sua compaixão. Impassivo, privilegia os eleitos e condena o resto. Indiferente, descarta a prece da criança quando não se encaixa em seus propósitos. Distante, volta as costas para os miseráveis em nome da coerência.

Existe um deus que não é Deus. É possível encontrá-lo nos paços sacerdotais, nas leis canônicas, nas teologias que o sistematizaram. Ele vingou na religião e a cúrias já mapearam as suas ações. Sem bondade, ele defende a virtude. Sem graça, faz apologia da verdade. Os cristão sabem que ele existe; já provaram o fel de sua justiça na Inquisição. O homem-bomba de hoje testemunha o seu furor para os muçulmanos. Ele aparece em cada campanha de oração pentecostal para mostrar como é difícil ganhar o seu favor.

Existe um deus que não é Deus. Ele é uma divindade que não suporta ver Jesus almoçando com pecadores, bebendo vinho perto de mulheres suspeitas, elogiando pagãos ou prometendo o Paraíso para gatunos. Esse deus precisa desaparecer, pois é um ídolo malvado. E só com a sua morte nascerá o Salvador.

Ricardo Gondim

A Ética Das Dez Palavras da Montanha

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Tenho tido um grande interesse pelo Antigo Testamento, principalmente pelo Decálogo. Muitos exegetas e estudiosos da Escritura tem executado variadas tentativas de atualizá-lo para os nossos dias. O teólogo luterano Frank Crusemann é um deles com a sua pequena obra "Preservação da Liberdade - O Decálogo numa Perspectiva Histórico-Social".

Todas essas tentativas estão encharcadas pelo inconteste pressuposto de que o Decálogo pode-se encontar, como em nenhum outro lugar - nem memso no Sermão do Monte (Mt.5) - a suma da ética bíblica e assim, tambem o ponto de partida da ética cristã.

Mas é teólogo norte-americano Norman K. Gottwald que mais me chamou atenção com a sua forma de abordar a Escritura como literatura. Observe aqui os seus apontamentos sobre "Proibições do Decalogo Ético", no seu livro "Introdução socioliterária à Bíblia Hebraica" - (pg.159-160).

Listas sucintas de proibições: os Dez Mandamentos

Há duas listas de proibições substanciais em Ex 20,1-17 e em Ex 34,11-26 que ocupam pontos de importância crítica nos textos da teofania e da aliança. A primeira destas é repetida, com variações menores, em Dt 5,6-21. As listas de Êxodo 34 e Deuteronômio 5 denominam-se "dez mandamentos" no texto bíblico (cf. Ex 34,27 e Dt 4,13; 10,4) e esse título, ou termo latino equi-valente "Decálogo", tem sido aplicado tradicionalmente à lista de Êxodo 20/Deuteronômio 5. Os estudiosos bíblicos distinguem freqüentemente a lista de Êxodo 20/Deuteronômio 5 da lista de Êxodo 34 com base no conteúdo, referindo-se à primeira como o Decálogo Ético, e à segunda como o Decálogo Ritual.

A base para exatamente dez mandamentos enquanto soma total de exigências éticas ou rituais foi provavelmente para facilitar a memória, associando cada proibição a um dos dez algarismos. Na realidade, Êxodo 34 tem doze mandamentos, e é, por isso, denominado com freqüência do decálogo. Manifesta-se que dois dos seus doze mandamentos são intrusos e que o original compunha-se provavelmente de apenas dez membros. Outros decálogos foram propostos em Lv 18,6-18 e 20,2-16, e Dt 27,15-26 contém doze maldições rituais, que podem outrora ter sido dez em número. Em todas as outras partes da Bíblia, encontram-se listas das características éticas do adorador, aceitáveis a Iahweh (e.g., Ez 18,5-9 e Sl 24,2-5), que parecem pressupor a estrutura de decálogo, embora não o conteúdo exato dos decálogos conservados.

Característico da forma de decálogo é que ele é composto de mandatos ou proibições negativas breves, sem qualquer cláusula de punição por infringi-los. Dois dos mandatos no Decálogo Ético formulam-se positivamente, como são metade dos mandatos no Decálogo Ritual, porém, é provável que na sua forma original todas as estipulações dos decálogos estivessem formuladas em sentido negativo. Igualmente, as proibições centrais no Decálogo Ético foram ampliadas consideravelmente por meio de explanações e motivações. Desembaraçadas destas proibições, as dez proibições breves e gramaticalmente completas são atribuídas amplamente a Moisés. Julgamentos a respeito da época do Decálogo Ético dependem fundamentalmente de dois fatores: (1) se o grau de generalidade na lista deve entender-se como precedendo ou seguindo a for-mulação de estipulações mais específicas nos códigos de leis; e (2) se as condições socioeconômicas e religiosas pressupostas nas proibições são consistentes com condições prováveis durante o curso de vida de Moisés. A aplicação destes critérios é, por sua vez, atingida por, exatamente, como o significado particular de proibições ambíguas deve ser interpretado.

É evidente que estas proibições enérgicas estão longe de ser claras ao especificar o comportamento exato que elas excluem da comunidade. É razoavelmente certo que muitas interpretações modernas da força jurisdicional do Decálogo não se aplicavam no antigo Israel. As proibições não tratavam do juramento na fala comum, não consideravam um homem casado que praticava o sexo com mulher não casada como adúltero, não proibiam a pena capital, matar na guerra, ou o aborto, e não validavam o direito de possuir quantidades ilimitadas de propriedade. Todas estas são interpretações "revisionistas", que a seu favor só se pode argüir como extensões dos "princípios" ou "espírito" do Decálogo, em vez de preceitos formulados no Decálogo.

A suposição de que as proibições pressupõem a vida de aldeias de Israel em Canaã é qualificada consideravelmente, logo que sejam eliminadas as expansões secundárias da forma breve das proibições. Além disso, se alguns israelitas passaram anos em Cades, antes de entrarem em Canaã, é provável que praticassem agricultura limitada nos seus oásis. Muito pouco se sabe da ori-gem ou do significado primitivo da observância do sábado para julgar de maneira concludente se ela poderia ter sido prática central para Moisés. É possível interpretar todas as proibições como coerentes com as condições de vida israelita no curso da vida de Moisés. Se o Decálogo remonta realmente a Moisés, depende, naturalmente, do problema intimamente relacionado de se Moisés foi mediador da aliança entre Iahweh e o povo. Alguns que preferem a forma de pacto da aliança mosaica consideram o Decálogo como declaração de plano de ação das esferas da vida reivindicado pela divindade soberana, referentes a que estipulações mais pormenorizadas deviam ser estabelecidas nas diversas leis de casos. Reconhecimento da soberania de Iahweh nestes âmbitos da vida seriam requisitos prévios para qualidade de membros na comunidade cultual e civil de Israel.

De qualquer maneira, é provável que o Decálogo pertença a período relativamente primitivo da vida de Israel, verossimilmente já dentro da época pré-monárquica. Caso tivesse sido interpretado como sumário ou abstração posteriores das leis de casos existentes, poder-se-ia esperar que ele fosse mais explícito e preciso a respeito do significado exato das proibições.

Proibições do Decálogo Ético

1. Proibição do culto a qualquer outro deus fora Iahweh, quer no sentido de que nenhum outro deus deve ser adorado em lugar cultual consagrado a Iahweh, quer no sentido de que não deve haver aceitação de qualquer outro deus como tendo pretensão sobre israelitas (Ex 20,3; Dt 5,7; cf. Ex 22,20)

2. Proibição de fabricar imagens de deuses/Deus, seja para representar Iahweh, seja para representar qualquer outro deus, ou em ambos os sentidos (Ex 20,4; Dt 5,8; cf. Ex 20,23)

3. Proibição do emprego incorreto do nome de Iahweh, quer no sentido de juramentos feitos levianamente, desnecessariamente ou desonestamente, ou no sentido de uso mágico do nome para amaldiçoar ou evocar espíritos maus para causar dano a outros injustamente (Ex 20, t; Dt 5,11)

4. Proibição de trabalho no dia sétimo ou sábado (Ex 20,8; Dt 5,12).

5. Proibição de amaldiçoar os próprios pais quer no sentido de jovens que desonram pais que ainda possuem governo sobre eles, quer no sentido de adultos amadurecidos que desonram ou deixam de cuidar de seus pais mais velhos (Ex 20,12; Dt 5,16).

6. Proibição de assassínio de outro israelita, seja homicídio com dolo, seja no sentido de que o assassino ou perpetrador de crime capital não possa ser executado sem processo legal adequado, ou ambos (Ex 20,13; Dt 5,17).

7. Proibição do adultério, seja abrangendo uma variedade de ligações sexuais com mulher casada ou comprometida (Ex 20,14; Dt 5,18).

8. Proibição de roubar propriedade/pessoal?) quer no sentido de furtar todas as espécies de possessões pessoais, quer no sentido de roubar, ou seja, seqüestrar, pessoa, o que era fonte comum para o tráfico de escravos na antiguidade (Ex 20,15; Dt 5,19; cf. Ex 21,16).

9. Proibição de acusar falsamente outro israelita, quer como queixoso em processo, quer como testemunha, ou ambos (Ex 20,16; Dt 5,20)

10. Proibição de cobiçar/apossar-se da casa de outro israelita/de membros da casa, quer no sentido de condenar o desejo íntimo ou cobiça de tomar propriedade ou pessoas pertencentes a outro, quer no sentido de apossar-se intencionalmente de propriedade, que deve ser diferenciado da captura de pessoas em n. 8 (Ex 20,17; Dt 5,21).

"Um chamado, uma vocação: Um homem, simplesmente homem!"

18:41 / Postado por Theologia Cidade Paradoxo / comentários (0)



Jesus foi para a Galiléia, proclamando as boas novas de Deus.
Marcos 1.14b
Como nasceu e se desenvolveu na consciência de Jesus de Nazaré a sua vocação ministerial? Não o sabemos. É realmente um fato notável que jamais na sua missão ele tenha chamado a atenção para sua vida anterior, essa vida da aldeia de Nazaré. Essa vida privada de Jesus é oculta, segredo totalmente privado. Como se originou a sua vocação? O “Judeu marginal” da Galiléia dos gentios, que estava junto ao caminho do mar, próximo ao Jordão não se preocupava com essa questão, e nem mesmo com o exercício de sua missão.

Na verdade jamais Jesus explicou quem ele era realmente. Deixou muitos judeus, as grandes massas e os seus próprios aprendizes na incerteza. Os espíritos malignos denunciavam-no descaradamente, mas Jesus os mandava que se calassem (Mc.1.25). As grandes massas o aclamavam como “mashiach”, mas ele fugia para o deserto. João, o batizador ficou atônito e mandou perguntar-lhe por intermédio dos seus discípulos: “És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar algum outro?” Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos vêem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas novas são pregadas aos pobres. (Mt.11.3-5). Porém, não diz quem ele é.

Quando Pedro apóstolo, respondendo à pergunta de Jesus, lhe disse: “Tu és o Mashiach” (Mc.8.29), o Emanuel “os advertiu que não falassem a ninguém a seu respeito” (Mc.8.30).

Nada nos permite se quer imaginar a consciência que Jesus de Nazaré tinha de si mesmo e de sua vocação nessas circunstâncias. De qualquer forma ninguém durante o seu ministério terreno, desconfiou que ele fosse mais do que um homem. Mas sabiam que era um homem fora do comum, muito a frente da sua época. Os seus seguidores sabiam que as coisas que ele fazia e as palavras de subversão que proferia procediam da parte de Javé e o davam na qualidade de uma pessoa revestida de uma missão divina. O ícone do “Ungido de Javé” (Is.61.1) estava impressa na consciência de todos. Não seria será ele o “Libertador de Isra-el”? Mas ninguém desconfiou que pudesse ser algo mais. Esse algo mais estava “absconditus”. Não podia ser “revelatus”. Somente João, o apostolo do amor, projeta no seu evangelho as coisas que descobriu pós-pascoa. Nada permitia suspeitar de algo superior a sua natureza humana. Sem dúvida alguma, Jesus era um homem que superava todos os tipos conhecidos pelos seus contemporâneos. Mas era simplesmente um homem, um judeu marginal da Galiléia.

Quem somos nós para questionar ou até mesmo condenar a “falta de fé” ou a “falta de visão” dos contemporâneos e até dos seus seguidores? Será que não seria melhor respeitar o anonimato de Javé? Se Javé quis que a sua presença particular no homem Jesus permanece abscondita, devia ter seus motivos. Por que queremos logo levantar as cortinas dos mistérios de Javé? Esse segredo não terá a sua razão de ser? Será que nós não precisamos caminhar com o homem Jesus durante um bom caminho, na sua “humana-idade” de homem, simplesmente homem, como se uma pessoa divina não estivesse nele, em lugar de querer logo penetrar nos arcanos da sua “divina-idade”? Não queria Javé significar que, se não fizermos essa longa caminhada para nos compenetramos da humanidade de Jesus, poderíamos perder a sua verdadeira divindade e descobrir em lugar dela um ídolo colocado e criado por nós mesmos para satisfazer os nossos fetiches?

Jesus nunca promoveu ou aceitou qualquer tipo ou forma de culto dirigido a ele. Os seus seguidores tratavam-no com respeito, às vezes com temor, nunca com adoração, louvor ou com sentimentos religiosos. Tratam-no como profeta, milagreiro, ou até messias, nunca como sendo Javé. Isso nem de longe passou pela mente deles. Mais tarde quando Paulo apóstolo, levou a mensagem de Jesus às terras pagãs, na Ásia, sobretudo, comunidades foram levantadas no meio dos cultos orientais e criou-se uma liturgia em honra de “Jesus, o Cristo”, fizeram o culto de Jesus. Houve um tempo em que ser cristão apareceu aos olhos do mundo como sendo “praticar o culto de Jesus”. Havia os que praticavam o culto de Serápis, outros de Átis, outros de Mitra, outros de Cristo. Só que não podemos aceitar precipitadamente essa definição de ser cristão. Os evangelhos ensinam é que Jesus quer antes de tudo discípulos se engajem no seu seguimento e na sua missão, e não seguidores que praticam o seu culto, fazendo, depois, cada um, sua vida como bem entende. O culto a Jesus é legitimo. Porém precisa ser moderado para deixar também lugar àquele caminho pelo os seguidores devem seguir a Jesus como homem, simplesmente homem, prescindido da sua qualidade divina. Durante boa parte do caminho e da caminhada, precisamos adotar e respeitar o anonimato de Deus e fazer de conta que Jesus é homem mesmo, puro homem, e ouvi-lo, acompanhá-lo como se acompanha a um homem, simplesmente homem.

Haroldo Evangelista@

"Um Novo Amanhecer"

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Na Europa pós-cristã existe a premente necessidade de construir pontes de diálogo com o mundo acadêmico. Como o historiador francês acredita que o cristianismo tem condições de interagir com a ciência, filosofia e humanidades, fornece algumas pistas para a conversa.

Sugere: abertura para a evolução; revisão da antropologia pessimista do pecado original; modelo alternativo de compreensão sobre Deus.

Recomendo fortemente À Espera da Aurora. Entretanto, atrevo-me pinçar alguns conceitos sobre Deus da obra de Delumeau.

Os genocídios e massacres do século XX – o mais sangrento da história – levaram teólogos cristãos e pensadores judeus reverem pressupostos sobre uma divindade no controle dos eventos. Delumeu pergunta: “Pode-se crer na bondade após Auschwitz? Por que seu silêncio diante de um genocídio sem precedentes?”. Elie Wiesel, sobrevivente de um campo de concentração nazista e Prêmio Nobel da Paz, disse: “Fazemos nossas, as terríveis acusações que Jó proferiu: Deus parece brincar com o homem [...] ser indiferente ao seu sofrimento. E Deus não faz nada para dissipar esse mal-estar na civilização”.

Delumeau cita Pierre Bayle (1646-1707) que rejeitou a explicação clássica do sofrimento humano como resultado do pecado original: “A maneira pela qual o mal se introduziu sob o império de um ser infinitamente bom, infinitamente santo, infinitamente poderoso é não apenas inexplicável, mas até mesmo incompreensível”.

Delumeau propõe a única saída para este beco sem saída. “Tomar consciência da não-potência de Deus”. Obviamente uma afirmação desse tipo causa horrores na cristandade, acostumada a pensar Deus a partir da filosofia grega. Mas o escândalo e a loucura da fé cristã repousam precisamente neste alicerce: Deus se tornou homem. “Por que existe mal? Não há nenhuma resposta que esteja ao nosso alcance. Mas ainda assim o cristianismo esclarece e relativiza esse imenso enigma por meio de duas fortes afirmações: (1) Deus ficou entre nós para sofrer, como nós, com a violência do mal e ele morreu no abandono mais completo; (2) na Jerusalém definitiva, o mal terá desaparecido”.

As Escrituras afirmam categoricamente que Deus não pode negar a si mesmo. Mas “a Encarnação pressupõe que Deus, tornado homem como você e eu, tenha colocado entre parênteses sua ‘onipotência’ durante todo o tempo de sua missão terrestre. O que nos conduz a enunciar duas proposições contraditórias do ponto de vista de nossa situação humana: Deus é ao mesmo tempo o Todo-Poderoso que está na origem do ‘céu e da terra’ e o Não-Poderoso do qual os frágeis relatos evangélicos nos deixaram traços".

"O Deus para o qual os cristãos oram todos os dias ‘gemeu em um berço’, segundo a fórmula de Lutero... Ele não procurou se defender, sendo aprisionado, torturado, forçado a carregar a cruz do seu suplício e pendurado a esse objeto infamante. Eis o Deus proclamado pelo cristianismo: um profeta desarmado... desarmado frente ao mal... O Deus Todo-Poderoso que se tornou um ‘escombro’ humano: estamos aqui no âmago do paradoxo cristão e da ‘loucura da cruz’ que, sem explicar as raízes do mal, nos garante que Deus quis compartilhar nossa condição, por mais assustadores que sejam nossos sofrimentos e penas”.

Delumeau cita Pascal: “Cristo estará em agonia até o fim do mundo”. Para Delumeau, Deus só exercerá completamente sua vontade soberana quando a história humana chegar ao seu final. “Então, somente então, sua vontade será feita ‘tanto na terra como no céu’ – fórmula que só pode ser compreendida se lhe for restituído o seu alcance escatológico. Ao comentar o Pai Nosso, Marc Philonenko,o sábio editor dos Écrits intertestamentaires, escreve: ‘a vontade’ de Deus se exerce nos céus desde o começo do mundo. Ela se exercerá definitavamente na terra no dia do Juízo. Não antes disso. Enquanto durar a história, o homem-Deus sofre como nós e conosco”.

“Contudo, é preciso constatar que Jesus permaneceu mudo sobre o pecado original, tampouco se pronunciou sobre a origem do mal. Ora, parece-me que devemos imitá-lo nesse silêncio e, se me permitem dizer, ‘não seremos mais realistas que o rei”.

“Claudel com razão escreveu em algum lugar: ‘Deus não veio explicar o sofrimento; ele veio preenchê-lo com sua presença'”.

Claro que o texto acima não passa de um resumo impreciso do pensamento de Delumeu. Insisto: os que estiverem insatisfeitos com os modelos teológicos tradicionais e ousarem aventurar-se – e arriscar-se – a pensar fora dos enlatados, leiam Delumeau.