Jesus foi para a Galiléia, proclamando as boas novas de Deus.
Marcos 1.14b
Marcos 1.14b
Como nasceu e se desenvolveu na consciência de Jesus de Nazaré a sua vocação ministerial? Não o sabemos. É realmente um fato notável que jamais na sua missão ele tenha chamado a atenção para sua vida anterior, essa vida da aldeia de Nazaré. Essa vida privada de Jesus é oculta, segredo totalmente privado. Como se originou a sua vocação? O “Judeu marginal” da Galiléia dos gentios, que estava junto ao caminho do mar, próximo ao Jordão não se preocupava com essa questão, e nem mesmo com o exercício de sua missão.
Na verdade jamais Jesus explicou quem ele era realmente. Deixou muitos judeus, as grandes massas e os seus próprios aprendizes na incerteza. Os espíritos malignos denunciavam-no descaradamente, mas Jesus os mandava que se calassem (Mc.1.25). As grandes massas o aclamavam como “mashiach”, mas ele fugia para o deserto. João, o batizador ficou atônito e mandou perguntar-lhe por intermédio dos seus discípulos: “És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar algum outro?” Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos vêem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas novas são pregadas aos pobres. (Mt.11.3-5). Porém, não diz quem ele é.
Quando Pedro apóstolo, respondendo à pergunta de Jesus, lhe disse: “Tu és o Mashiach” (Mc.8.29), o Emanuel “os advertiu que não falassem a ninguém a seu respeito” (Mc.8.30).
Nada nos permite se quer imaginar a consciência que Jesus de Nazaré tinha de si mesmo e de sua vocação nessas circunstâncias. De qualquer forma ninguém durante o seu ministério terreno, desconfiou que ele fosse mais do que um homem. Mas sabiam que era um homem fora do comum, muito a frente da sua época. Os seus seguidores sabiam que as coisas que ele fazia e as palavras de subversão que proferia procediam da parte de Javé e o davam na qualidade de uma pessoa revestida de uma missão divina. O ícone do “Ungido de Javé” (Is.61.1) estava impressa na consciência de todos. Não seria será ele o “Libertador de Isra-el”? Mas ninguém desconfiou que pudesse ser algo mais. Esse algo mais estava “absconditus”. Não podia ser “revelatus”. Somente João, o apostolo do amor, projeta no seu evangelho as coisas que descobriu pós-pascoa. Nada permitia suspeitar de algo superior a sua natureza humana. Sem dúvida alguma, Jesus era um homem que superava todos os tipos conhecidos pelos seus contemporâneos. Mas era simplesmente um homem, um judeu marginal da Galiléia.
Quem somos nós para questionar ou até mesmo condenar a “falta de fé” ou a “falta de visão” dos contemporâneos e até dos seus seguidores? Será que não seria melhor respeitar o anonimato de Javé? Se Javé quis que a sua presença particular no homem Jesus permanece abscondita, devia ter seus motivos. Por que queremos logo levantar as cortinas dos mistérios de Javé? Esse segredo não terá a sua razão de ser? Será que nós não precisamos caminhar com o homem Jesus durante um bom caminho, na sua “humana-idade” de homem, simplesmente homem, como se uma pessoa divina não estivesse nele, em lugar de querer logo penetrar nos arcanos da sua “divina-idade”? Não queria Javé significar que, se não fizermos essa longa caminhada para nos compenetramos da humanidade de Jesus, poderíamos perder a sua verdadeira divindade e descobrir em lugar dela um ídolo colocado e criado por nós mesmos para satisfazer os nossos fetiches?
Jesus nunca promoveu ou aceitou qualquer tipo ou forma de culto dirigido a ele. Os seus seguidores tratavam-no com respeito, às vezes com temor, nunca com adoração, louvor ou com sentimentos religiosos. Tratam-no como profeta, milagreiro, ou até messias, nunca como sendo Javé. Isso nem de longe passou pela mente deles. Mais tarde quando Paulo apóstolo, levou a mensagem de Jesus às terras pagãs, na Ásia, sobretudo, comunidades foram levantadas no meio dos cultos orientais e criou-se uma liturgia em honra de “Jesus, o Cristo”, fizeram o culto de Jesus. Houve um tempo em que ser cristão apareceu aos olhos do mundo como sendo “praticar o culto de Jesus”. Havia os que praticavam o culto de Serápis, outros de Átis, outros de Mitra, outros de Cristo. Só que não podemos aceitar precipitadamente essa definição de ser cristão. Os evangelhos ensinam é que Jesus quer antes de tudo discípulos se engajem no seu seguimento e na sua missão, e não seguidores que praticam o seu culto, fazendo, depois, cada um, sua vida como bem entende. O culto a Jesus é legitimo. Porém precisa ser moderado para deixar também lugar àquele caminho pelo os seguidores devem seguir a Jesus como homem, simplesmente homem, prescindido da sua qualidade divina. Durante boa parte do caminho e da caminhada, precisamos adotar e respeitar o anonimato de Deus e fazer de conta que Jesus é homem mesmo, puro homem, e ouvi-lo, acompanhá-lo como se acompanha a um homem, simplesmente homem.
Haroldo Evangelista@

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