"Jardins"

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Alguma coisa me aconteceu
E tudo parece fugir para outro lugar
Estrelas tristes tentam me explicar
E nada acontece se dissipam todas pelo ar

Há medo em meu jardim
Pois uma rosa disse adeus pra mim
Mas tudo tem um fim eu sei
Só não sonhava que seria assim

Aonde quer que você vá
Eu quero te encontrar
Por onde você for

Eu preciso de mais
Eu preciso mais
Preciso de você aqui

Arco-íris Na Escuridão

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Quando aparece um raio, você sabe que ele sempre me derruba
Pois ele é livre e eu vejo que sou eu
Quem está perdido e jamais encontrado
Eu clamo por magia, eu a sinto dançando na luz
Ela estava fria, eu perdi meu controle
Para as sombras da noite

Não há nenhum sinal da manhã chegando
Você foi deixado sozinho
Como um arco-íris na escuridão
Um arco-íris na escuridão

Seus demônios, eles sempre te deixam ir?
Quando você tentou eles se esconderam bem no fundo
É alguém que você conhece?
Você é apenas um retrato, uma imagem pega a tempo
Nós somos uma mentira, você e eu
Nós somos palavras sem rima

Não há nenhum sinal da manhã chegando
Você foi deixado sozinho
Como um arco-íris na escuridão
Apenas um arco-íris na escuridão
Sim!

Quando aparece um raio, ele sempre me derruba
Pois ele é livre e eu vejo que sou eu
Quem está perdido e nunca encontrado
Eu sinto a magia, eu a sinto flutuando no ar
Mas isso é medo, e você ouvirá
Ele chamando você cuidadosamente
Cuidado!

Não há sinal da manhã chegando
Não há nenhuma visão do dia
Você foi deixado sozinho
Como um arco-íris
Como um arco-íris na escuridão

Sim!
Você é um arco-íris na escuridão
Apenas um arco-íris na escuridão
Não há sinal da manhã
Você é um arco-íris, na escuridão

"Omnia Cinis Aequat"

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Lembro de nós dois
Sorrindo na escada aqui
Estava tudo tão bem
E de repente acabou


Vozes no portão
Passos no saguão
Poderia ser você
Mas faz tempo que partiu


Deixou algo aqui, e pouco a pouco encontro seus sinais


Menos de um segundo e eu já perco o ar
Quase um minuto, quero te encontrar
É um sentimento que preciso controlar
Porque você se foi
Não está aqui


Tudo que ficou
Mexe com meu interior
Isso afeta meus sentidos
Foi o seu cheiro que sumiu


Tudo acabou, interrompeu-se tudo que existiu


Menos de um segundo e eu já perco o ar
Quase um minuto, quero te encontrar
É um sentimento que preciso controlar
Porque você se foi
Não está aqui


Partiu num dia qualquer
Sem ao menos dizer adeus
E o que ficou?
Um coração que sofre
Como quem espera a próxima entrada da estação
E o que separa o frio do calor
É a emoção de saber que vou
Poder te reencontrar um dia
Eternamente te encontrar
Eternamente encontrar você


Menos de um segundo e eu já perco o ar
Quase um minuto, quero te encontrar
É um sentimento que preciso controlar
Porque você se foi
Não está aqui

Søren Kierkegaard e o Cristianismo

21:07 / Postado por Theologia Cidade Paradoxo / comentários (0)


O problema objetivo consiste numa investigação acerca da verdade do cristianismo. O problema subjetivo diz respeito à relação do indivíduo com o cristianismo. Para pôr as coisas de forma simples: como é que eu, Johannes Climacus [Kierkegaard], posso participar da felicidade prometida pelo cristianismo? …
Partindo do princípio de que não há problemas com as Escrituras — o que se segue? Uma pessoa que antes não tinha fé passou a estar um só passo mais próximo de a ter? Não, nem um só passo. A fé não resulta da investigação científica; não tem de todo uma origem direta. Pelo contrário, nesta objetividade há a tendência para perder o interesse pessoal infinito pela paixão que é a condição da fé, o ubique et musquam no qual a fé pode brotar. Uma pessoa que antes tinha fé ganhou algo no que respeita à sua força e poder? Não, nem de longe. Em vez disso, aquilo que ocorre é que, neste volumoso conhecimento, nesta certeza que espreita à porta da fé e ameaça devorá-la, ela está numa situação tão perigosa que precisará esforçar-se muito, cheia de medo e a tremer, para que não caia vítima da tentação de confundir conhecimento com fé. Apesar de a fé ter tido até agora um mestre-escola eficaz na incerteza existente, teria na nova certeza o seu mais perigoso inimigo. Pois, se a paixão for eliminada, a fé deixa de existir, e a certeza e a paixão não coexistem. Quem quer que acredite que há um Deus e uma providência que tudo governa achará mais fácil preservar a sua fé, mais fácil adquirir uma coisa que é definitivamente fé e não uma ilusão, num mundo imperfeito em que a paixão é mantida viva do que num mundo absolutamente perfeito. Num tal mundo, a fé é … impensável.
Assumo agora o oposto, que os adversários conseguiam provar o que desejam sobre as Escrituras, com uma certeza que transcende a vontade mais ardente da hostilidade mais entusiástica — e daí? Aboliram com isso o cristianismo? De modo algum. Foi o crente lesado? De modo algum, nem um bocadinho. O adversário tornou legítimo ser liberto da responsabilidade de não ser crente? De modo algum. Lá porque estes livros não são escritos por estes autores … e não são inspirados não se segue … que Cristo não existiu. Até agora, o crente é igualmente livre para assumi-lo. …
Eis o ponto essencial da questão, e retorno ao caso da teologia culta. Em prol de quem é a prova procurada? A fé não precisa dela e deve até vê-la como sua inimiga. Mas quando a fé começa a sentir-se embaraçada e envergonhada, como uma donzela para quem o seu amado já não é suficiente, mas que se sente secretamente envergonhada do seu amante e tem, portanto, de pensar que há algo de notável nele — quando a fé começa deste modo a perder a paixão, quando a fé começa a deixar de ser fé, então torna-se necessária uma prova para merecer o respeito do lado da descrença. … A filosofia ensina que deve tornar-se objetiva, ao passo que o cristianismo ensina que deve tornar-se subjetiva, isto é, tornar-se um sujeito na verdade. … O cristianismo deseja intensificar a paixão ao seu mais alto grau; mas a paixão é subjetividade e não existe objetivamente. …
Pode-se presumir, então, que a tarefa de tornar-se subjetivo é a tarefa mais elevada e uma tarefa proposta a todos os seres humanos; tal como, analogamente, o prêmio mais elevado, uma felicidade eterna, existe apenas para aqueles que são subjetivos; ou melhor, passa a existir para os indivíduos que se tornam subjetivos.
Quando a questão da verdade é colocada de forma objetiva, a reflexão é dirigida objetivamente para a verdade como um objeto com o qual aquele que conhece está relacionado. Contudo, a reflexão não está focada na relação, mas na questão de saber se é a verdade com a qual aquele que conhece está relacionado. Se apenas o objeto com que ele está relacionado é verdadeiro, o sujeito é considerado estar na verdade. Quando a questão da verdade é levantada subjetivamente, a reflexão é dirigida subjetivamente para a natureza da relação individual; se apenas o modo desta relação está na verdade, o indivíduo está na verdade mesmo que ele esteja assim relacionado com o que não é verdade. Tomemos como exemplo o conhecimento de Deus. Objetivamente, a reflexão é dirigida ao problema de saber se este objeto é o Deus verdadeiro: subjetivamente, a reflexão é dirigida para a questão de saber se o indivíduo está relacionado com uma coisa de tal maneira que a sua relação é na verdade uma relação-com-Deus. … O indivíduo existente que escolhe prosseguir o caminho objetivo entra no processo-de-aproximação completo pelo qual se tenta revelar Deus objetivamente. Mas isto é totalmente impossível, porque Deus é um sujeito e, portanto, existe para a subjetividade apenas na interioridade. A ênfase objetiva incide no que é dito, a ênfase subjetiva no como é dito. Esta distinção mantém-se mesmo no reino estético e recebe uma expressão precisa no princípio de que é em si mesmo verdade pode na boca de tal e tal pessoa tornar-se falso … Objetivamente o interesse está focado unicamente no pensamento-conteúdo, subjetivamente na interioridade. No seu máximo este “como” interior é a paixão do infinito, e a paixão do infinito é a verdade. Mas a paixão do infinito é completa subjetividade e, assim, a subjetividade torna-se a verdade. … Apenas na subjetividade existe determinação para procurar o fator e não o seu conteúdo, pois o seu conteúdo é precisamente ele próprio. Desta forma, a subjetividade e o seu “como” subjetivo constitui a verdade. … Eis aqui uma tal definição de verdade: uma incerteza objetiva agarrada rapidamente num processo de apropriação da mais apaixonada interioridade é a verdade, a verdade mais elevada que um indivíduo existente pode atingir. …
Mas a definição acima de verdade é uma expressão equivalente da fé. Sem riscos não há fé. A fé é exatamente a contradição entre a paixão infinita da interioridade individual e a incerteza objetiva. Se sou capaz de captar Deus objetivamente, não acredito, mas precisamente porque não sou capaz de fazer isto tenho de acreditar. … Sem risco não há fé e quanto maior o risco maior a fé; quanto mais é a segurança objetiva menos é a interioridade (pois a interioridade é precisamente subjetividade), e quanto menos é a segurança objetiva mais profunda é a interioridade possível. Quando o paradoxo é em si mesmo paradoxal repele o indivíduo em virtude do seu absurdo e a paixão correspondente à interioridade é a fé.
Quando Sócrates acreditou que havia um Deus, ele agarrou-se rapidamente à incerteza objetiva com toda a paixão da sua interioridade, e é justamente nesta contradição e neste risco que a fé tem as suas raízes. Agora é de forma diferente. Em vez da incerteza objetiva, há aqui uma certeza, a saber, que objetivamente é absurdo; e este absurdo, agarrado rapidamente na paixão da interioridade, é fé. A ignorância socrática é uma espécie de brincadeira genial em comparação com a seriedade perante o absurdo; e a interioridade existencial socrática é uma frivolidade grega em comparação com a enérgica gravidade da fé. Devido à sua repulsão objetiva o absurdo é precisamente a medida da intensidade da fé na interioridade. Suponha um homem que deseje adquirir a fé; deixe a comédia começar. Ele deseja ter fé, mas ele deseja também proteger-se por intermédio de uma investigação objetiva e do seu processo-de-aproximação. O que acontece? Com a ajuda do processo-de-aproximação o absurdo torna-se algo diferente; torna-se provável, torna-se progressivamente provável, torna-se extrema e enfaticamente provável. Agora ele está pronto a acreditar nisso, e ele aventura-se a afirmar para si mesmo que não acredita como os sapateiros e os alfaiates e o povo simples acredita, mas apenas após uma longa deliberação. Agora ele está pronto a acreditar nisso; e, vejam só, agora tornou-se completamente impossível acreditar nisso. Algo que seja quase provável, ou provável, ou extrema e enfaticamente provável, e algo que ele pode quase conhecer, ou tão bom como conhecer, ou extrema e enfaticamente quase conhecer — mas é impossível acreditar…

Para quem foi Exílio?

06:32 / Postado por Theologia Cidade Paradoxo / comentários (0)

Creio que aqui temos o verdadeiro sentido da história do exílio. Descobrimos que a história oficial de Isra-El no livro dos Reis é a história dos reis. A história das Crônicas não é melhor visto que é a história somente dos reis de Judá, sem Isra-El, o Reino do Norte. Esta é uma história de ricos e burgueses, pois a riqueza numa sociedade organizada segundo o modo de produção tributário coincide com o rei e seus ministros.

O exílio babilônico (598-597 a.e.C) não é o exílio de Judá, e sim o exílio da família real, de seus servos, os ricos e o clero religioso (2ªRs.24.14). Dez mil pessoas foram exiladas. A população de Judá pode ser calculada em 250 mil nessa época, isso significa 4% da população. A massa camponesa foi deixada. Houve uma segunda deportação em Jerusalém (587-586 a.e.C), na corte e no templo de Zedequias – perfazendo 832 pessoas (Jr.52.28s).

Quem é que Deus castigava com o exílio, devido aos seus pecados? É evidente que é os reis e seus amigos mais do que íntimos. Nem todos da população sofreram as agruras do exílio, mas os seus problemas maiores se deram quando os exilados voltaram da Babilônia  e exigiram suas terras de volta das mãos dos camponeses (Ne.5). O julgamento de Javé sobre Isra-El, Reino do Norte, é bem mais duro e ambíguo (2ªRs.17.20-23).

Judá também não é melhor que Isra-El, pois, de seus vinte monarcas, somente cinco tiveram algum grau de positividade em suas gestões reais. Somente Josias recebeu elogio (2ªRs.20.2). Podemos concluir que realmente o castigo do exílio foi para os reis, ricos e religiosos de Jerusalém. O povo pobre nem peca escandalosamente e nem sofre castigos por isso. Ao contrário, descobrimos na Sagrada Escritura que a opção de Deus é pelos pobres.

Soli Deo Gloria!

Pr. Haroldo Evangelista

Solidão Pós-moderna

18:18 / Postado por Theologia Cidade Paradoxo / comentários (0)


O Século XXI é mutante. Isso não chega a ser novidade, se pensarmos que o homem sempre esteve, digamos, evoluindo. A ciência e a tecnologia estão aí, dando saltos imensos, em frentes que vão da microbiologia e seus transgênicos à busca do deslindamento da história do universo, através das lentes de poderosos telescópios.

Somos mutantes, no entanto, no sentido de que nossa humanidade se perde nessas mudanças. Elas são em número e velocidade acima de nossa capacidade de absorção. Alienação passa a ser um antiácido a ser ingerido juntamente com a salada de frutas de informação que temos que deglutir todo dia.

Nossa desumanização começa, por exemplo, quando abrimos mão da casa paterna para tentar a vida em uma outra cidade ou país — e nunca mais voltamos. Nossos pais ficam sem netos e nossos filhos sem avós e tios. E nossa história, nossos valores, ideais, referenciais e heróis; nosso patrimônio simbólico, enfim, se perde na distância.

Longe da família e da igreja de origem, buscamos formar uma nova família. Uma família plasmada na correria da vida, na superficialidade, na sensualidade e na urgência oriunda de uma crescente carência afetiva. Tentamos reter na memória a nossa velha humanidade, mas já não nos sentimos à vontade abrindo o coração, falando do mundo interior, de sonhos, de ideais, de projetos de vida que, eventualmente, possam ser vividos a dois. "Ficamos" até onde for possível.

No ambiente de trabalho, as relações são cordiais o suficiente para esconder a luta encarniçada estabelecida pela competição: somente os mais adaptados sobrevivem. Os encontros, festas, almoços e jantares de negócio são o que resta dos laços cálidos e duradouros dos companheiros da infância.

Para sobreviver nesse ambiente hostil e exigente, pai e mãe precisam trabalhar. Para serem alguém, algo mais que simples "mão-de-obra", precisam de toda a energia disponível para tocar uma carreira de sucesso. Precisam vencer na vida. E essa vitória não comporta filhos. Pelo menos não do jeito antigo: filhos para serem amados em um convívio extenso e intenso. Agora eles são "curtidos" nos finais de semana em que não estejamos viajando a serviço. Durante a semana, terão uma boa educação numa creche ou numa escola de tempo integral. Desmamados cedo, eles aprendem a ser independentes.

Quando o divórcio vem (a carreira pode exigir), eles passam a viver ora com o pai, ora com a mãe — e com seus meio-irmãos, oriundos do novo casamento do pai e da mãe.

Não tenhamos pena desses nossos filhos. Eles se adaptarão. Sobreviverão e serão parecidos conosco. Não, serão melhores. Serão mais fortes e resistentes às distâncias, indiferenças e separações. Serão adaptados a um mundo onde não se olha para dentro, para a alma; aprenderão a ligar a televisão para não ouvir o silêncio; aprenderão a se ligar às pessoas sem chegar perto; aprenderão a confiar desconfiando e a não esperar misericórdia; aprenderão a fazer amor sem amar; aprenderão a viver no Século XXI. São mutantes.

Alguns deles, um dia, numa praça, numa esquina, ouvirão dizer que "Cristo salva". E pensarão: "não estou morrendo". Outros, no entanto, compreenderão que nEle lhes é possível uma nova e antiga humanidade — a humanidade original, na qual o colo do pai, da mãe, de tios e avós lhes é restaurado no mistério da igreja; no milagre da regeneração de seu próprio interior. Salvação. Nossos filhos mutantes, perdidos e órfãos ouvirão: "assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus" (Ef 2, 19)— e crerão.

Rubem Amorese

O deus que não é Deus

15:30 / Postado por Theologia Cidade Paradoxo / comentários (0)



Existe um deus que não é Deus. O único com força para enfrentar a Deus. Esse deus não vive em alguma dimensão cósmica ou ponto do universo. Seu oratório é a mente humana. Ele é um deus familiar, pois vive nos espelhos da alma. Mesquinho, cobra desempenhos impossíveis. Inclemente, castiga as inadequações dos fracos com fúria. Ofendido por uma pessoa, dizima gerações inteiras. Imprevisível, age com um humor indetectável.

Existe um deus que não é Deus. Capaz de ofuscar o próprio Deus, misturou-se em todas as religiões. Sanguinário, exige sacrifício para estender a sua compaixão. Impassivo, privilegia os eleitos e condena o resto. Indiferente, descarta a prece da criança quando não se encaixa em seus propósitos. Distante, volta as costas para os miseráveis em nome da coerência.

Existe um deus que não é Deus. É possível encontrá-lo nos paços sacerdotais, nas leis canônicas, nas teologias que o sistematizaram. Ele vingou na religião e a cúrias já mapearam as suas ações. Sem bondade, ele defende a virtude. Sem graça, faz apologia da verdade. Os cristão sabem que ele existe; já provaram o fel de sua justiça na Inquisição. O homem-bomba de hoje testemunha o seu furor para os muçulmanos. Ele aparece em cada campanha de oração pentecostal para mostrar como é difícil ganhar o seu favor.

Existe um deus que não é Deus. Ele é uma divindade que não suporta ver Jesus almoçando com pecadores, bebendo vinho perto de mulheres suspeitas, elogiando pagãos ou prometendo o Paraíso para gatunos. Esse deus precisa desaparecer, pois é um ídolo malvado. E só com a sua morte nascerá o Salvador.

Ricardo Gondim

A Ética Das Dez Palavras da Montanha

13:06 / Postado por Theologia Cidade Paradoxo / comentários (0)




Tenho tido um grande interesse pelo Antigo Testamento, principalmente pelo Decálogo. Muitos exegetas e estudiosos da Escritura tem executado variadas tentativas de atualizá-lo para os nossos dias. O teólogo luterano Frank Crusemann é um deles com a sua pequena obra "Preservação da Liberdade - O Decálogo numa Perspectiva Histórico-Social".

Todas essas tentativas estão encharcadas pelo inconteste pressuposto de que o Decálogo pode-se encontar, como em nenhum outro lugar - nem memso no Sermão do Monte (Mt.5) - a suma da ética bíblica e assim, tambem o ponto de partida da ética cristã.

Mas é teólogo norte-americano Norman K. Gottwald que mais me chamou atenção com a sua forma de abordar a Escritura como literatura. Observe aqui os seus apontamentos sobre "Proibições do Decalogo Ético", no seu livro "Introdução socioliterária à Bíblia Hebraica" - (pg.159-160).

Listas sucintas de proibições: os Dez Mandamentos

Há duas listas de proibições substanciais em Ex 20,1-17 e em Ex 34,11-26 que ocupam pontos de importância crítica nos textos da teofania e da aliança. A primeira destas é repetida, com variações menores, em Dt 5,6-21. As listas de Êxodo 34 e Deuteronômio 5 denominam-se "dez mandamentos" no texto bíblico (cf. Ex 34,27 e Dt 4,13; 10,4) e esse título, ou termo latino equi-valente "Decálogo", tem sido aplicado tradicionalmente à lista de Êxodo 20/Deuteronômio 5. Os estudiosos bíblicos distinguem freqüentemente a lista de Êxodo 20/Deuteronômio 5 da lista de Êxodo 34 com base no conteúdo, referindo-se à primeira como o Decálogo Ético, e à segunda como o Decálogo Ritual.

A base para exatamente dez mandamentos enquanto soma total de exigências éticas ou rituais foi provavelmente para facilitar a memória, associando cada proibição a um dos dez algarismos. Na realidade, Êxodo 34 tem doze mandamentos, e é, por isso, denominado com freqüência do decálogo. Manifesta-se que dois dos seus doze mandamentos são intrusos e que o original compunha-se provavelmente de apenas dez membros. Outros decálogos foram propostos em Lv 18,6-18 e 20,2-16, e Dt 27,15-26 contém doze maldições rituais, que podem outrora ter sido dez em número. Em todas as outras partes da Bíblia, encontram-se listas das características éticas do adorador, aceitáveis a Iahweh (e.g., Ez 18,5-9 e Sl 24,2-5), que parecem pressupor a estrutura de decálogo, embora não o conteúdo exato dos decálogos conservados.

Característico da forma de decálogo é que ele é composto de mandatos ou proibições negativas breves, sem qualquer cláusula de punição por infringi-los. Dois dos mandatos no Decálogo Ético formulam-se positivamente, como são metade dos mandatos no Decálogo Ritual, porém, é provável que na sua forma original todas as estipulações dos decálogos estivessem formuladas em sentido negativo. Igualmente, as proibições centrais no Decálogo Ético foram ampliadas consideravelmente por meio de explanações e motivações. Desembaraçadas destas proibições, as dez proibições breves e gramaticalmente completas são atribuídas amplamente a Moisés. Julgamentos a respeito da época do Decálogo Ético dependem fundamentalmente de dois fatores: (1) se o grau de generalidade na lista deve entender-se como precedendo ou seguindo a for-mulação de estipulações mais específicas nos códigos de leis; e (2) se as condições socioeconômicas e religiosas pressupostas nas proibições são consistentes com condições prováveis durante o curso de vida de Moisés. A aplicação destes critérios é, por sua vez, atingida por, exatamente, como o significado particular de proibições ambíguas deve ser interpretado.

É evidente que estas proibições enérgicas estão longe de ser claras ao especificar o comportamento exato que elas excluem da comunidade. É razoavelmente certo que muitas interpretações modernas da força jurisdicional do Decálogo não se aplicavam no antigo Israel. As proibições não tratavam do juramento na fala comum, não consideravam um homem casado que praticava o sexo com mulher não casada como adúltero, não proibiam a pena capital, matar na guerra, ou o aborto, e não validavam o direito de possuir quantidades ilimitadas de propriedade. Todas estas são interpretações "revisionistas", que a seu favor só se pode argüir como extensões dos "princípios" ou "espírito" do Decálogo, em vez de preceitos formulados no Decálogo.

A suposição de que as proibições pressupõem a vida de aldeias de Israel em Canaã é qualificada consideravelmente, logo que sejam eliminadas as expansões secundárias da forma breve das proibições. Além disso, se alguns israelitas passaram anos em Cades, antes de entrarem em Canaã, é provável que praticassem agricultura limitada nos seus oásis. Muito pouco se sabe da ori-gem ou do significado primitivo da observância do sábado para julgar de maneira concludente se ela poderia ter sido prática central para Moisés. É possível interpretar todas as proibições como coerentes com as condições de vida israelita no curso da vida de Moisés. Se o Decálogo remonta realmente a Moisés, depende, naturalmente, do problema intimamente relacionado de se Moisés foi mediador da aliança entre Iahweh e o povo. Alguns que preferem a forma de pacto da aliança mosaica consideram o Decálogo como declaração de plano de ação das esferas da vida reivindicado pela divindade soberana, referentes a que estipulações mais pormenorizadas deviam ser estabelecidas nas diversas leis de casos. Reconhecimento da soberania de Iahweh nestes âmbitos da vida seriam requisitos prévios para qualidade de membros na comunidade cultual e civil de Israel.

De qualquer maneira, é provável que o Decálogo pertença a período relativamente primitivo da vida de Israel, verossimilmente já dentro da época pré-monárquica. Caso tivesse sido interpretado como sumário ou abstração posteriores das leis de casos existentes, poder-se-ia esperar que ele fosse mais explícito e preciso a respeito do significado exato das proibições.

Proibições do Decálogo Ético

1. Proibição do culto a qualquer outro deus fora Iahweh, quer no sentido de que nenhum outro deus deve ser adorado em lugar cultual consagrado a Iahweh, quer no sentido de que não deve haver aceitação de qualquer outro deus como tendo pretensão sobre israelitas (Ex 20,3; Dt 5,7; cf. Ex 22,20)

2. Proibição de fabricar imagens de deuses/Deus, seja para representar Iahweh, seja para representar qualquer outro deus, ou em ambos os sentidos (Ex 20,4; Dt 5,8; cf. Ex 20,23)

3. Proibição do emprego incorreto do nome de Iahweh, quer no sentido de juramentos feitos levianamente, desnecessariamente ou desonestamente, ou no sentido de uso mágico do nome para amaldiçoar ou evocar espíritos maus para causar dano a outros injustamente (Ex 20, t; Dt 5,11)

4. Proibição de trabalho no dia sétimo ou sábado (Ex 20,8; Dt 5,12).

5. Proibição de amaldiçoar os próprios pais quer no sentido de jovens que desonram pais que ainda possuem governo sobre eles, quer no sentido de adultos amadurecidos que desonram ou deixam de cuidar de seus pais mais velhos (Ex 20,12; Dt 5,16).

6. Proibição de assassínio de outro israelita, seja homicídio com dolo, seja no sentido de que o assassino ou perpetrador de crime capital não possa ser executado sem processo legal adequado, ou ambos (Ex 20,13; Dt 5,17).

7. Proibição do adultério, seja abrangendo uma variedade de ligações sexuais com mulher casada ou comprometida (Ex 20,14; Dt 5,18).

8. Proibição de roubar propriedade/pessoal?) quer no sentido de furtar todas as espécies de possessões pessoais, quer no sentido de roubar, ou seja, seqüestrar, pessoa, o que era fonte comum para o tráfico de escravos na antiguidade (Ex 20,15; Dt 5,19; cf. Ex 21,16).

9. Proibição de acusar falsamente outro israelita, quer como queixoso em processo, quer como testemunha, ou ambos (Ex 20,16; Dt 5,20)

10. Proibição de cobiçar/apossar-se da casa de outro israelita/de membros da casa, quer no sentido de condenar o desejo íntimo ou cobiça de tomar propriedade ou pessoas pertencentes a outro, quer no sentido de apossar-se intencionalmente de propriedade, que deve ser diferenciado da captura de pessoas em n. 8 (Ex 20,17; Dt 5,21).