Estamos vivendo em uma cultura poderosamente marcada pelo consumo, que de alguma maneira, orienta o ser humano em suas escolhas mais profundas. Não me refiro ao consumo enquanto forma de sobrevivência. Mas à onda de consumo que se torna “fim”, e não apenas “meio” de vida, que cria dependência psíquica e física, conseqüência de uma sociedade cada vez mais materialista e hedonista.
Tal situação é gerada pela exigência do mercado, e tem criado pelo menos duas vocações de contraste. A primeira é o culto às mercadorias que nasce da fé em suas promessas de auto-satisfação e felicidade. A segunda é a legião de consumidores, que quanto mais adquirem os objetos desejados do seu consumo líquido, mais vazios se sentem, e a felicidade é sempre postergada.
No meio dessas pessoas que se dão conta de tais juramentos não cumpridos, estão as que, de alguma maneira, buscam preencher a sua existência vazia enquanto ser. Desejam respostas que as “coisas” que consomem não conseguem dar. O psiquiatra austríaco Victor Frankl (1905-1997) afirma o seguinte: “sonhamos que bastava fazer progredir as condições socioeconômicas de uma pessoa para que tudo caminhasse bem, para que ela ficasse feliz. A verdade é que a luta pela sobrevivência não se acaba, e ponto. De repente brota a pergunta: ‘Sobreviver? Mas para quê?’ Em nossos dias um número cada vez maior de indivíduos dispõe de recursos para viver, mas não de um sentido pelo qual viver”.
Abraham Maslow (1908-1970) na sua hierarquia das necessidades enfatiza o alimento, conforto, a segurança, e por mais importantes que sejam para a sobrevivência do ser humano, não é suficiente para dar sentido à vida. Nem mesmo a riqueza e o luxo podem fazer desaparecer a sensação de vacuidade e de inutilidade da existência. Olhando para o outro lado da moeda, não só a abundância, mas também extrema necessidade ou uma situação de debilidade física-corporal podem despertar perguntas sobre a razão e sentido da vida.
A partir desses horizontes imediatos humanos, a falta de sentido pode resultar em depressão, e se for uma situação gravíssima, pode levar a morte. As situações-limites levam as pessoas a elucubrar questionamentos existenciais como: “Quem eu sou? Para que existo? Por que isto está acontecendo comigo agora?”. O ser humano está constantemente sendo desafiado a preencher e dar sentido ao seu vazio existencial a partir de respostas e indagações como essas, as quais nunca chegarão a uma conclusão final.
Os animais irracionais estão submetidos às repostas permanentes, mas o ser humano não se conforma com o que é. Animais e plantas são o que são, e sempre serão. Só o gênero humano deve ser o que ainda não é. Todas as pessoas especialmente as que passam por “crise existencial”, necessitam de um alargamento de sua visão para consigo mesmo e do mundo que o cerca. A ciência constatou que a experiência transcendental ajuda a dar sentido à vida e, em muitos casos de doenças psíquicas ou físicas, leva à cura. A “espiritualidade cristã” é o caminho possível nessa busca.
“Transcendência” é a palavra chave na espiritualidade cristã. Transcender significa “sair-de-si-mesmo” para enriquecer-se com a realidade exterior. Só é possível a auto-realização, ou encontrar o sentido, quando alguém sai de si mesmo, ou seja, quando transcende para alguma realidade do mundo que o permeia. Sair-de-si-mesmo, com a meta de servir a alguma causa nobre, ou alguém, é a melhor forma de entrar dentro si mesmo e encontrar sentido.
A “espiritualidade cristã” é o “Caminho” que motiva a “sair-de-si-mesmo – transcendência” e a “servir”, e firmar-se em Jesus de Nazaré – o Cristo, nos valores que ele anunciou, tais como o amor, o perdão, a solidariedade, a justiça, a partilha, o respeito à pessoa humana.
Portanto, através de um relacionamento experiencial com Jesus de Nazaré, nasce o comprometimento real e concreto com a minha realidade existencial, encontrando assim a realização espiritual e humana que da sentido para vida. Essa satisfação é um anseio do coração humano e cabe a ele escolher o “Caminho" a seguir.
Haroldo Evangelista

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